terça-feira, 26 de junho de 2018


Decorriam os tórridos anos noventa e na memória ficaram-me as pedras que pareciam cozer de tão quentes. Houve dias nesse longo verão escaldante, em que as pedras foram testemunhas, o sol esmagava a paisagem alentejana. Os elementos sucumbiam um após outro e as cores misturavam-se na planície que inevitavelmente se iam banhando na paleta das cores.



                   

 Guika Rodrigues

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Do meu Alentejo que me viu nascer, crescer e me inspira.







“O Homem quer e a obra nasce”. Quando desejamos muito uma coisa, raramente não conseguimos atingir os nossos objetivos, foi a partir deste proposto que cresceu a vontade interior e inspiração de começar a pintar. Estava em 1997.
Nasci no Alentejo, em Mértola, no monte da Moreanes. Passados os meus primeiros 6 anos em Lisboa, passei daí em diante a celebrar a Páscoa e o Natal com os meus pais
na terra que me viu nascer.
Até hoje recordo o cheiro, da terra molhada, dos toros a arder na lareira que crepitava durante toda a noite enquanto as mulheres amassavam as filhós, o pão e os folares no forno a lenha nas épocas festivas.
Aos homens e às crianças era-lhes reservado o tempo para as conversas, as brincadeiras, ao convívio, às canções alusivas à quadra e aos risos que ainda hoje são traços bem definidos da minha personalidade.  
A paisagem ondulante do campo alentejano dos mais variados tons sempre me fascinou; os violetas, os diferentes verdes e as cores ocres castanhos e amarelos, os azuis, os vermelhos e laranjas do por do sol, foram responsáveis pelo escolher da paleta para as minhas telas. Da mistura das variadas cores e do forte desejo de deitar para fora as minhas emoções nasceu a minha obra; a paisagem do meu Alentejo profundo.
Convidada a expor em Portugal e no estrangeiro, em exposições individuais e coletivas, em Galerias, Bienais e Instituições várias, até à data reservo na memória momentos de grande honra, muitas emoções e desejos de contribuir para ver crescer a arte pictórica do Alentejo que me viu nascer. 


Guika Rodrigues

Novembro de 2017

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Alentejo... "Lignes de Terre et d’Horizon"

Quando fui convidada a participar num livro de poesia escrito em língua francesa, foi pedido que o fizesse em forma de uma pintura, uma pintura sobre o Alentejo. O convite partiu do amigo e escritor francês Philippe Despeysses. O livro de poesia nasceu da inspiração aquando das várias  incursões que o autor  fez regularmente ao Alentejo profundo.
Da paixão pelo que via e ouvia, dos testemunhos das gentes locais e das estórias contadas pelas gentes da terra sobre as suas vivências,  do som do vento da planície, das cores dos campos secos, do restolho, do azul do céu, da gastronomia e do cante alentejano, nasceu o livro de Philippe.



sábado, 24 de maio de 2014

7 Quadros 7 contos

Conto VII


“O beijo” de Klimt. Sim, beijo, amantes, ouro, composição de cores cromáticas. Fascina-me o ouro, o dourado, e Klimt sabe-o bem, porque não há obra do pintor que eu não goste. O Beijo, uma reprodução chinesa perfeita, encontrei-o em casa de um casal jovem que vivia para os lados do Parque das Nações, um certo dia que tive de me deslocar até lá para levar o meu filho às explicações de matemática. O rapaz convidou-me a entrar e no hall de entrada o quadro estava pendurado na parede. Parei e fiquei a olha-lo fixamente. Tempo demais pareceu-me, até o rapaz me despertar dos meus pensamento com um, conhece? Gosta? Acordei e respondi-lhe que conhecia e adorava, mas não tinha imaginado estar num frente a frente com o fabuloso “O Beijo”. Respondeu-me que poderia adquire um também, porque um site chinês reproduzia qualquer obra que eu quisesse, e na perfeição como eu estava a ver ali. Durante muito tempo pensei em mandar reproduzir uma das minhas obras preferidas, poderia ser aquela ou outra de Klimt, ou até uma outra qualquer, mas desisti da ideia, para mim o “ O beijo” ou é original ou não é. E Klimt pintou-o com grande mestria, é o original que eu queria ter e ponto final. 

7 Quadros 7 contos

Conto VI


Trabalhei durante 5 anos numa biblioteca municipal que está localizada num bairro histórico de Lisboa, o Bairro Alto, perto do pitoresco e elegante bairro do Chiado. No Chiado está localizada a Faculdade de Belas Artes. A biblioteca tem um acervo riquíssimo em artes, na tabela classificação decimal universal (CDU) encontra-se classificado com o número 7, artes; artes visuais, artes plásticas, artes digitais, cinema, teatro, dança, ou seja, compreende o grande tema. Esta secção é, e sempre foi, a mais visitada na biblioteca, onde os alunos de artes da faculdade ficam a ocupar o maior espaço físico por terem à mão de semear os maiores génios e outros, dos temas dados nos semestres em que as disciplinas se desdobram. Foi nessa biblioteca que fiz o primeiro contacto com aquele que foi considerado o génio da Bauhaus e grande influenciador da pintura abstracta lírica, que transmitiu as emoções através da tela e no abstracto revela uma encenação teatral. Quase todos os estudantes pediam o mesmo livro, Kandinsky, e todos eles queriam a “Composição 8”. Ficava fascinada a olhar as cores que me deixavam a pensar o que o pintor queria dizer com aquelas formas geométricas, numa composição estética que bailam num espaço de explosão de cores, azuis rodopiam com amarelos, as cores quentes convivem em harmonia com as cores frias. Foi muito antes de lançar-me na minha aventura da pintura, parecia que estava a adivinhar que um dia escreveria sobre a bela “Composição 8” de Kandinsky.